PORQUE IGREJA PURITANA?

Em primeiro lugar, o puritanismo não-conformista como conjunto de doutrinas, derivado e subordinado às Escrituras, crê, quanto a eclesiologia, na relativa autonomia de cada congregação local. Diferente daqueles que são adeptos das formas de governo congregacionais vigente, que creem na completa autonomia, ou seja, na independência das congregações. Para o puritano não-conformista a igreja é um pacto mútuo e voluntário firmado entre homens regenerados pelo poder do Santo Espírito na proclamação do Evangelho, no qual comprometem-se a formar uma santa comunidade. Repito que, para o não-conformista puritano, cada igreja ou congregação particular é uma instância da Igreja de Cristo, não importa quão poucos indivíduos ali se reúnam, ou quão precário ou comum que seja o local onde celebram o Culto; eles são parte real do Corpo de Cristo, o Templo do Espírito Santo e a habitação de Deus [1 Coríntios 3:16, Efésios 2:21, 1 Pedro 2:5].

Assim, para o não-conformista puritano (especialmente referindo-nos aqui ao que aprendemos pela Escritura Sagrada, auxiliados por John Owen e Richard Baxter, e, posteriormente, por Samuel Rutherford e, por fim, do herdeiro destes santos homens, Robert Kalley), cada igreja ou congregação particular, ainda que diminuta ou desconhecida ao mundo, é desta forma tão preciosa ante o Senhor, que não pode existir proeminência entre estas, nem qualquer privilégio de uma congregação sobre a outra. Menos ainda, segundo o que nos ensina a Escritura poderia ser lícito que um homem domine sobre os outros de uma congregação, ou sobre várias congregações [1 Pedro 5:1-4], seja como bispo universal ou bispo diocesano. Cremos, contudo, que nosso Senhor sendo um Deus de ordem [1 Coríntios 14:33], não deixou seu povo sem auxílio ou direção, mas determinou servos e distribui para eles dons de governo e socorro [Romanos 12:6-8, Efésios 4:8-11], escolhendo, dentre estes, alguns para governar sobre Seu povo em amor [1 Pedro 4:10-11; Eclesiastes 9:16]. Estes homens, que administram ao povo tesouros espirituais em Cristo e nEle os governa, são chamados de Presbíteros ou de Bispos [Tito 1:5-7]. A autoridade destes homens não está neles mesmos, nem na força ou na coação que possam exercer, nem na instituição que presidem, nem na sua ordenação per si – a autoridade deles está na Palavra de Cristo, que deve dirigir suas vidas e ser abundante em seus lábios, confirmada, segundo o Espírito, pelos membros da congregação e recebida, com alegria, pelos Santos. Embora seja possível que uma congregação seja formada sem oficiais, é um útil e necessário mandamento, segundo a Palavra de Cristo, que cada congregação possua ao menos um Presbítero Professor (ou seja, com abundante conhecimento da Palavra e grande capacidade de liderança, preferivelmente com vasto estudo em nosso Seminário Teológico, donde seu assento ministerial repousa) ou Pastor (homem dotado de dons de sabedoria para aplicar a Palavra com sabedoria e cuidar do rebanho do Senhor) e um número suficiente de Presbíteros Governantes e Diáconos.

Cremos e defendemos ainda, segundo aprendemos da Sagrada Escritura e nos foi legado, que para que o governo seja exercido, em cada congregação, com equidade e para que a união espiritual que desfrutamos em Cristo seja visível, é uma determinação de nosso Senhor (portanto é lícito e proveitoso) a reunião destes presbíteros em concílios ou assembleias (tanto na congregação local, formando um concílio local e permanente, quanto reunindo presbíteros de várias congregações, em reuniões regulares) nos quais uns edificarão aos outros segundo a sabedoria que Deus lhes tem concedido, servir-se-ão mutuamente segundo seus dons, e onde fiscalizarão uns aos outros (evitando que Satanás levante pretensos bispos universais no meio do povo de Deus, como já tem feito em todos os séculos através do mistério da iniquidade chamado trono Papal). Com a autoridade da Palavra que carregam consigo, os presbíteros reunidos em concílio local executam deliberações doutrinárias e pastorais sobre o rebanho e, quando necessário (como, por exemplo, em caso de exclusão de um membro), apresentam estas deliberações para apreciação e votação de toda a congregação. Quando reunidos em concílios regionais, os presbíteros retornam para suas congregações levando as solenes decisões doutrinárias e pastorais tomadas em comum conselho, para que sejam recebidas pelo restante do rebanho do Senhor, não por força ou coerção, mas por reconhecimento da Palavra da Verdade e da ordem através da qual Cristo, o Cabeça, governa a Igreja.

Cabe ainda a cada congregação local reunir-se, regularmente, para deliberar sobre os assuntos comuns, patrimoniais ou administrativos e para se submeter aos oficiais que presidirão sobre eles. Cremos portanto, que segundo as promessas de Deus, nos concílios (tanto locais quanto regionais) e nas assembleias, decisões mais sábias são tomadas do que as que poderiam ser feitas por um presbítero isolado dos seus santos irmãos em Cristo [Provérbios 15:22]. Mais detalhes sobre a Forma de Governo Reformada e Puritana, histórica, que difere substancialmente dos independentes, podem ser encontrados no Livro de Ordem, Governo e Disciplina Comum publicado por nós (o qual é baseado nos documentos históricos da Igreja, tanto na Forma de Governo chamada de Westminster, quanto nas Plataformas elaboradas nos EUA, nos Livros de Disciplina da Igreja da Escócia e nos Artigos Orgânicos fundacionais brasileiros), onde, dentre tantas outras preciosas instruções, encontramos uma equilibrada visão da Igreja Neotestamentária, expressa nas seguintes palavras: “O governo da Igreja é um governo misto – quanto a nosso Senhor o Cristo, que é cabeça e rei da igreja, e ao Soberano Poder residente nEle, e exercido por Ele, a Igreja é uma monarquia; quanto ao corpo ou fraternidade da igreja, e ao poder que Cristo comissionou a eles, ela se assemelha a uma democracia; quanto ao presbitério e ao poder comunicado a eles, é uma aristocracia.

A origem histórica deste modo de governo sem dúvida se perde no tempo desde aquilo que alguns teólogos chamaram república do Velho Testamento, e pode ser acompanhado através do desenvolvimento da religião judaica na foma das sinagogas, cujo governo era (e ainda é em grande parte do mundo) semelhante ao descrito acima. Quanto a este modo de governo sobre a igreja Neotestamentária, cremos que ele foi praticado desde os apóstolos. São João Crisóstomo, o grande teólogo do século IV, assim como São Jerônimo no mesmo século, concordavam em dizer que: “antes de o Diabo fazer crescer o facciosidade em meio a religião … as igrejas eram governadas através de concílios de presbíteros. Somente depois desta época ocorreu de ser decretado por todo o mundo que algum escolhido de entre os presbíteros dominasse sobre os outros