HERANÇA PURITANA

Exatamente como o terrível império romano, a igreja de Roma obscureceu a Luz da Palavra e cobriu com terra imunda as antigas fontes da água da vida tanto quanto pôde. Este maligno exercício lançou os cristãos em uma terrível peregrinação pelos desertos da perseguição e martírio por séculos. E, embora o Evangelho de Cristo jamais tenha desaparecido da terra, porque isto é impossível, a verdadeira Igreja que traz consigo esta Palavra permaneceu por mais de mil anos fugindo da apóstata igreja de Roma. A aurora da Palavra, segundo a graça de Deus, trazendo de volta ao mundo a luz do Evangelho e findando este período de tentação da verdadeira Igreja no século XVI, após duras batalhas travadas por pregadores e pré-reformadores, batalhas que se intensificaram a partir do século XIII. É dentre os pré-reformadores que encontramos, na Inglaterra, John Wycliff, um clérigo que protestou bravamente contra a Igreja de Roma apesar de correr enorme risco ao fazê-lo. O grande John Wycliff, ao exortar o povo a conhecer as Escrituras e obedecê-las como única regra de fé e prática, lançou as sementes que floresceriam séculos mais tarde, quando, ao fundar a igreja Anglicana (uma igreja nominalmente separada da igreja de Roma, porém que procurava conservar muitos dos seus costumes e doutrinas), Henrique VIII desafiou os ânimos daqueles que desejavam uma verdadeira igreja cristã na Inglaterra. Muitos destes ânimos haviam sido excitados pelo trabalho de John Wycliff (que persistira aos séculos), outros com a chegada da Bíblia traduzida para o idioma Inglês pelo mártir William Tyndale (outro legítimo antepassado dos Puritanos), e ainda outros com as notícias da Reforma que prosseguia em todo o mundo. Neste cenário, leigos, ministros e teólogos cheios de zelo e piedade, conhecedores da Escritura e dotados do mais entranhado desejo de servir ao Senhor com todo coração, todas as forças e todo o entendimento, se ergueram e começaram a pregar a reforma e purificação da igreja Anglicana para que ela se tornasse uma igreja fiel à pureza e simplicidade do Evangelho de nosso Senhor. Formava-se ali um movimento pietista e intelectual de alcance mundial cujos participantes foram chamados de “Puritanos”. E, foi devido ao grande desejo que os puritanos possuíam de que a Igreja se conformasse a Palavra de Deus em todas as coisas (inclusive na forma de Governo) que o movimento não-conformista e, posteriormente, a específica forma que descrevemos aqui, tanto quanto a doutrina, como quanto a piedade, nasceu.

Portanto, apesar de nossa ênfase inicial, por uma questão de polêmica histórica, ter sido sobre a Forma de Governo da Igreja, não é somente uma forma de governo específica que nos faz concordar com os puritanos, mas temos, pela Graça de Deus, sido chamados a sermos uma vera continuação do puritanismo de onde surgimos – uma legítima revivificação da igreja primitiva e do ensino apostólico, uma legítima revivificação da fé reformada esposada outrora por Wycliff, Tyndale, João Calvino e John Knox. Reafirmamos que o Puritanismo é um conjunto de doutrinas onde o zelo pela glória de Deus em Sua igreja e em Seu povo destaca-se ímpar; onde se têm a Escritura como única e suficiente, autoritativa e perfeita palavra de Deus para Seu povo; e se tem em Cristo toda a salvação e todos os tesouros espirituais que a graça de Deus desejou comprar para entregar aos pecadores arrependidos que nada merecem por si, exceto os horrores eternos do inferno. Destarte, o puritanismo é a bíblica e indestrutível doutrina dos apóstolos, recebida de Cristo, ensinada na Escritura Sagrada e reencenada na Reforma Protestante. Por isso afirmamos sem temor que uma igreja verdadeiramente fiel a Escritura será, de uma forma ou outra, conduzida a tornar-se Puritana e Reformada em suas doutrinas e práticas – levada a aderir a Fé Cristã Histórica, confessada pela igreja de Cristo em todos os séculos. E foi nesta peregrinação e jornada que temos sido conduzidos por nosso Mestre e Senhor para sermos uma Igreja Puritana e Reformada.