PURITANISMO NO BRASIL

A origem do puritanismo no Brasil remete a primeira obra de Evangelização permanente do país: o trabalho missionário do Rev. Robert Reid Kalley. A figura do Rev. Kalley é comumente mal compreendida quanto a questão Congregacionalista. Isto se dá porque o Reverendo foi tanto o fundador das primeiras igrejas de governo congregacional no Brasil, quanto foi o primeiro tradutor e divulgador dos escritos de autores congregacionalistas, puritanos e não-conformistas em língua portuguesa. Além disso, o Reverendo Kalley, apesar de ser membro da Igreja da Escócia, que é uma Igreja Presbiteriana, ao fundar igrejas no Brasil não o fez sob um estrito regime presbiteriano típico, por exemplo das igrejas dos EUA e dos outros dois continentes onde o Reverendo atuou como fundador de igrejas. Mas, quanto a isto, devemos levar em conta que o regime presbiteriano escocês era tal que o Puritano considerado adepto da forma de governo congregacional chamado John Owen (considerado um dos maiores teólogos da História, ao lado de João Calvino e Jonathan Edwards) em conversa com outro grande Puritano, o presbiteriano chamado Richard Baxter (considerado um dos maiores pastores da História), disse a Baxter que não teria dificuldade alguma para conciliar seu congregacionalismo com o presbiterianismo escocês, se pudesse trabalhar para a união dos dois grupos. Igualmente, Baxter, repito, dito Presbiteriano, reconheceu nos escritos de Owen a “mesma forma de governo e disciplina” que ele mesmo praticava, passando logo a propor a Owen uma união.

Da mesma forma, Samuel Rutherford, puritano escocês tido por fundador do presbiterianismo jure divino da Escócia (o qual honramos e adotamos conforme expresso em nossos Símbolos de Fé), republicou grande parte do trabalho de Owen sobre Governo e Natureza da Igreja, aprovando estes escritos e interagindo construtivamente com grande parte destes. Portanto, a forma como inicialmente organizou-se a Igreja Evangélica no Brasil não representa um rompimento com o Presbiterianismo, mas uma expressão do desejo de união entre os Não-Conformistas; ou seja, entre diversos Puritanos Reformados do mundo, entre todos que almejam uma vida e uma igreja santas, separadas da conformidade mundana dos hipócritas e das religiões criadas pelos homens. Temos em Baxter, Owen, Flavel, Rutherford e Bunyan, dentre outros puritanos, grandes expressões desta “universalidade” e desejo de união visível na Igreja de Cristo, doutrina e afeição esta que tomou expressão recente tanto na obra de E.J. Poole Connor (que, abençoado pelo Senhor com longevidade, foi tanto contemporâneo de Charles Spurgeon e Robert Kalley, quanto nosso) e de D.Martyn Lloyd-Jones. Neste contexto e sob esta herança teológica reformada e puritana, a Igreja Evangélica foi fundada por Robert Reid Kalley como uma legítima comunidade não-conformista, orientada a exercitar a liberdade de consciência sob o exame e regra da Escritura (conforme diz a Confissão de Fé de Westminster). Portanto, a Igreja Evangélica, na obra de Owen, Bunyan, Rutherford e Baxter (para citar dois nomes que claramente marcaram a teologia de Kalley), e na formação que o Reverendo recebera na Igreja da Escócia, estava paralelamente sob forte influência do congregacionalismo puritano e do presbiterianismo escocês representado por estes homens. Não obstante, Silvana Azara Kalley, filha adotiva do Rev. Kalley, declarava abertamente que a Igreja por ele fundada no Brasil transcendera o denominacionalismo do presbiterianismo modernista (surgido no século XIX), assim como também não se adequava aos chamados batistas ou a qualquer denominação então vigente: era simplesmente a fé dos antigos puritanos revivida.

O afastamento da Igreja Evangélica de suas raízes kalleyanas, e, portanto do não-conformismo puritano, se deu por razões históricas alheias a teologia de Robert Kalley – não foi o Doutor que impediu estas congregações de se tornarem firmes bastiões do Puritanismo Reformado no Brasil, mas sim seus membros, pouco a pouco influenciados por outras correntes teológicas (como o Darbismo), que se afastaram da Reforma – até mesmo contrariando recomendações que o amado Reverendo fez tanto por cartas quanto em seus sermões. No entanto, dentro da herança teológica dos primeiros evangélicos do Brasil, nas igrejas fundadas por Robert Kalley, a teologia não-conformista e puritana foi passada, de geração em geração, por alguns poucos homens, enquanto a grande maioria era cada vez mais influenciada pelas novidades de cada época.