O QUE É UMA IGREJA PURITANA?

As constantes mudanças em nossa sociedade nos dão a impressão de que não há absolutos. Sucedem-se as novidades e nada parece capaz de sustentar-se sem ser afetado pela velocidade da informação e do seu produto nas sociedades humanas. Governos caem, sistemas financeiros vão à falência. Mesmo na religião, e mesmo em igrejas Cristãs – mais ainda, mesmo em comunidades distintivamente tradicionalistas – as mudanças no último século, drásticas mudanças, são notáveis. Porém a Escritura declara, confrontando uma superficial análise do mundo: Aquilo que veio a ser é o que virá a ser; e o que se tem feito é o que se fará; de modo que não há nada de novo debaixo do sol” (Eclesiastes 1:9).

É grande a batalha que temos pela frente como Igreja, porque é nosso dever, segundo a promessa que o Altíssimo nos faz na Sagrada Escritura, permanecer firmes na Verdade “mesmo que a Terra se mova” e os “montes estremeçam entre os mares” (cf. Salmo 46) – isto é, mesmo que o testemunho majoritário daqueles que professam o cristianismo fraquejar, e os inimigos  da fé parecerem nos engolir e tragar. Porém, esta não é a batalha exclusiva do século XXI, e sim a história da redenção, a vera filosofia da história que a igreja, chamados para serem estrangeiros e peregrinos, enfrenta neste mundo desde os dias de Adão, quando o sangue de Abel, o justo, foi dado por bebida ao solo. Não há outra possibilidade, nem outra forma de estar sob o favor divino, senão permanecer na verdade eterna: a fiel proclamação da revelação de Cristo na Santa Bíblia.

Devemos conhecê-la, devemos declará-la.  Deve, contudo, ser declarada com convicção, paixão e realidade. Não somos chamados para nos isolarmos em uma fantasia onde o século XVI (ou XVII, ou XVIII…) é o único refúgio para o crente, e as necessidades de nossa era são patentemente ignoradas. Aquele que diz “os dias passados eram melhores que os de hoje” contende contra Deus, ignora as vicissitudes da existência e a permanente e infecciosa ferida pela qual a queda pôs a criação em dores (cf. Eclesiastes 7:10).

Devemos confrontar os males de hoje e tocar a consciência do agora usando a aguda espada da proclamação da fé apostólica – que antecede todos os séculos passados e ultrapassa todos os séculos futuros.

Devemos exibir diante do mundo o estandarte da verdade, demonstrando que todas as ansiedades, todo desespero e todo caos moderno, pós-moderno ou hodierno provém da natureza pecaminosa de cada um de nós, havendo uma única solução para a salvação temporal e eterna, um único remédio para a doença do mal no coração do homem: a redenção em Jesus Cristo.

Devemos resistir tenazmente, não ceder nem um micro segundo, nem um nanômetro, do ponto e do lugar que o Senhor nos chamou para estar, na doutrina e prática que a Escritura nos ensina e o Espírito Divino entalha no coração e consciência daquele que crê. Ao mesmo tempo, devemos nos adaptar, acolhendo, com sabedoria e prudência, as ferramentas que as circunstâncias da presente era nos cedem. Devemos pregar o Evangelho eterno, e a mesma verdade, e manter a mesma religião de nossos predecessores, portar a herança da reforma clássica, dos puritanos e covenanters, contudo sendo hábeis para nos fazermos judeus para com os judeus, e gentios para com os gentios. Hábeis para apresentar a razão de nossa fé e a resposta que a Escritura dá, centrada em Jesus Cristo Salvador, revelação e caminho da glória de Deus, esclarecendo com precisão o que se deve corrigir, o que se deve rejeitar, o que se deve abjurar e o que se deve redimir: no multiculturalismo, egualitarianismo, humanismo, secularismo, socialismo, capitalismo; na tecnologia, economia, governo, ciência; nos hábitos, padrões, princípios, moral, ética, entretenimento, identidade.

É verdade que muitos caíram nesta batalha, e tiveram a fortaleza de seu coração e mente atacada, invadida e saqueada da convicção na verdade revelada da Escritura Sagrada, ficando privados dos tesouros e adornos que embelezam e alegram a vida cristã: na piedade, no culto e no sistema teológico. Oremos ao Senhor dos exércitos que nos conceda vitória neste combate, e não abaixemos nossas mãos quando o cansaço se abater; permaneçamos na certeza dada pela Santa Bíblia que a reforma clássica, cujas declarações e confissões de fé temos recebido há quase um milênio (desde que, pleiteando paz ou misericórdia, para provar sua ortodoxia, pregadores e representantes das igrejas perseguidas que se refugiavam em lugares escondidos na Europa, como os Valdenses, escreveram curtas descrições das doutrinas que professavam) é a herança da fé apostólica, e seu sistema de doutrinas é plenamente agradável ao que aprendemos da Escritura. Especificamente, quanto a nossa particular história, honrando a providência do Altíssimo sobre nosso País e o sangue de nossos mártires, lutemos para preservar aquilo que recebemos desde as confissões Galicana e de Guanabara, e da igreja dos Huguenotes – dos primeiros que vieram ao nosso País trazer a sã doutrina; das incursões a igreja holandesa com as Três Formas e Unidade; e, finalmente, com a fundação da primeira igreja a se estabelecer no Brasil, indicada pelos seus primeiros pastores a ter como modelo, no seu desenvolvimento e no estudo dos símbolos de fé, aquela, pouco depois, no século XIX, chamada Free Church of Scotland, cujos Padrões de Westminster e Diretórios de Governo, Culto e Disciplina adotamos como padrões primários – os quais, cremos e provamos, são de perfeito e comum acordo em prática, piedade, sistema de doutrinas e culto, com todos os anteriormente citados, tomados então dentre nossos padrões secundários.

Bendito e Grandioso Deus, confessamos que este chamado para tal batalha nos dá extraordinária alegria, sabendo que para a enormidade deste dever, Tu também nos propõe uma eterna recompensa! Quão admirável é a Tua misericórdia e graça, pois chamaste fracos pecadores, vermes titubeantes, para receber de Ti o tesouro da sã doutrina, da revelação de Cristo Jesus, nosso Salvador. Ajuda-nos, Senhor, porque somos poucos e débeis para tamanha tarefa. Aumenta nossa fé, esperança e amor; firma nossos pés na Vereda da Justiça; glorifica Teu nome em nosso meio; faz resplandecer Tua face sobre nós e seremos salvos!