A Herança da
Fé Reformada-Puritana no Brasil

ou
Do Dever Moral e Histórico de Protestar contra a Decadência e Apostasia do Cristianismo, e do Papel da Igreja Puritana no cumprimento deste dever como Herdeira da Histórica da Reforma Protestante

O Tempo da Apostasia

A Sagrada Escritura nos ensina: “Amai-vos dedicadamente uns aos outros com amor fraternal(Romanos 12:10), “seja incessante o amor fraternal(Hebreus 13:1), “amai os irmãos(1 Pedro 2:17).  Este amor não é mero sentimento, permanecendo subjetivo ou sem prática, egoísta ou mundano,  porém é um amor divino, tal como o amor do Salvador Jesus Cristo por Seu Povo, e, portanto, um amor qualificado, descrito nas Escrituras, um amor “em atos e em verdade” (1 João 3:18), um amor que discerne o espírito da verdade do espírito do erro (1 João 4:6), isto é, o Espírito de Cristo, em quem está e se funda todo nosso amor, difere do espírito do AntiCristo (1 João 4:3), do qual devemos nos afastar. Amar a Jesus Cristo é guardar os Seus mandamentos e a Sua Palavra (João 15:10, 14:23); amar os irmãos no Senhor é ter uma mesma mente, um mesmo acordo, uma mesma fé (Filipenses 2:1-2). E este é um mandamento que temos, para provar nosso amor, para que todos vejam que somos um, como Deus Filho e Deus Pai são um e, para que, pela unidade de atos e de crenças, os homens venham a crer que o Pai enviou o Filho para Salvador do mundo (João 17:23). Quanto a estes irmãos na fé, aos quais devemos amar, com quem devemos ter uma mesma mente e um mesmo proceder, não estão limitados àqueles presentemente vivendo neste mundo, há uma “nuvem de testemunhas” (Hebreus 11) que conosco e por nós clama: “Até quando, Senhor? Não vingarás o Seu Nome?” (Habacuque 1:2-4; Apocalipse 6:10, 16:6; Salmos 74:9, 94:3), há uma miríade de homens que viveram nesta terra e que provaram seu amor por nosso Senhor, muitas vezes com o preço de seu próprio sangue, nos deixando o testemunho de sua doutrina e da prática que dela derivou; que lutaram contra o espírito do AntiCristo e do erro, e a favor do espírito da Verdade. Por este ensino da Escritura, a Igreja Puritana Reformada toma para si o que bem representado está, nos dizeres de Martinho Lutero: “muitos dos meus melhores amigos, encontro entre os que já morreram”. Vemos nas gerações passadas da Igreja de Jesus Cristo, muitos de nossos mais chegados irmãos, dos nossos mais preciosos pastores os quais, conosco e por nós, hoje ainda clamam: “Até quando, Senhor?”. Α apostasia da Cristandade, a fome, as guerras e as pestes estão ao nosso redor agora, estabelecidos desde muitos séculos, enquanto o homem da iniquidade se assenta em seu trono (2 Tessalonicenses 2:3-4, 8-9; para maior explicação vide Confissão de Fé de Westmister cap. XXV). Desde a aurora da Reforma Protestante há 500 anos, nem Martinho Lutero, nem João Calvino, hesitaram em identificar o Papa como Anticristo. Estamos em plena Era da Apostasia – do abandono da sã doutrina, desde a ascensão do Anticristo:“O Apóstolo diz que o dia de Cristo não virá sem que antes o mundo haja caído em apostasia e o reino do Anticristo haja fixado os pés na igreja. Paulo, portanto, usa o termo rebelião ou ‘apostasia’ significando um afastamento insidioso, uma traição para com Deus, não da parte de uma pessoa ou de uns poucos indivíduos, mas de tal forma que se espalharia por um largo círculo de pessoas. Agora, ninguém pode ser chamado de apóstata, exceto aquele que antes professou seguir a Cristo e ao Evangelho e após isto os abandonou. Paulo, portanto, está predizendo uma rebelião geral na igreja visível. ‘A Igreja tem de ser reduzida a um mísero e terrível estado de ruína antes que a plena restauração da igreja possa ter lugar’. Vede, irmãos que a batalha contra a apostasia não é futura, todavia presente. A perspectiva bíblica nos impõe que a humilhação preceda a exaltação, e a Igreja não será restaurada em santidade e doutrina antes que a apostasia e a perseguição nos reduza à quase extinção, à pequenez de duas testemunhas. Assim, não esperemos novas luzes, não nos portemos como se, do avanço do Reino do AntiCristo um entendimento e uma prática mais puras pudessem emergir, porém busquemos as antigas veredas e os marcos antigos, desentulhemos os poços cavados por nossos pais na fé, permaneçamos naquela nuvem de testemunhas, e retenhamos a doutrina e a prática bíblicas que a Reforma Protestante e os Teólogos de Westminster tão bem apuraram e resgataram ao voltarem para as fontes primitivas dos primeiros séculos, abandonando as novidades da vinha de Roma.

Não nos ajuntemos aos que amam as mudanças, mas perguntemos “Até quando?”, enquanto vemos esta Apostasia, esta Rebelião, que tem tornado e tornará a Igreja de Cristo em um punhado imperceptível de homens, enquanto conduz uma massa quase universal a se render ao AntiCristo. Como João Calvino e os Reformadores, como as Confissões de Fé do seu tempo (e outras de quase 500 anos ainda anteriores à Reforma afirmam): a Apostasia Universal permanece enquanto houver um Papa no trono da Cristandade. O Reformador de Genebra ratifica em seu comentário: “Paulo, contudo, quando avisou que a igreja estaria dispersa e fraca por causa da perseguição, e que a maior parte da igreja se rebelaria contra Cristo, acrescenta algo ainda mais sério—haveria tal confusão que o principal servo de Satanás teria supremo poder em e sobre a igreja e presidiria no lugar de Deus. Esta singular frase é suficiente para refutar o erro e tolice daqueles que reconhecem o Papa como Vigário de Cristo, tendo por base o fato dele possuir seu assento na igreja. Paulo põe o Anticristo em nenhum outro lugar, senão no vero santuário de Deus. O tal não é um amigo, mas um inimigo ao alcance das mãos, que se opõe a Cristo sob o vero nome de Cristo. Porém há uma questão: porque a Igreja é representada como centro de tantas superstições, quando ela foi destinada a ser o pilar da verdade (veja 1 Timóteo 3:15)? Em resposta, digo que ela é representada desta forma não por reter todas as qualidades da Igreja, mas porque ainda possui algumas qualidades da Igreja. Hoje é no Templo de Deus que o Papa governa, todavia, ao mesmo tempo, ele profanou este templo com inúmeros sacrilégios. Vede, irmãos, que ter por nome e aparência a forma de igreja, que ter algumas características de igreja, que ter algo do evangelho, algo da piedade, algo do culto, não basta. Antes, o AntiCristo reina exatamente onde há esta perigosa mistura de Verdade e Erro, pois a mistura só torna o Erro mais crível. Onde há espaço para um pouco de corrupção, um pouco de pentecostalismo, um pouco de liberalismo teológico, um pouco de teologia da libertação e política mundana, ali reina o AntiCristo. Não há sociedade entre Cristo e Belial, não se pode se assentar na Mesa de Deus, e na mesa dos demônios ao mesmo tempo. O homem puro e justo que se assenta sob o concílio dos ímpios, os ajuda a prosperar o engano pois, a cada denúncia do erro e do pecado, os ímpios e apóstatas poderão dizer “mas veja que eminente santo se assenta em nosso meio! Poderiam ser veras suas graves acusações, quando um verdadeiro profeta de Deus está em nossa comunhão em lugar de nos combater?”. Da mesma forma um pouco de doutrina pura, uma aparência de piedade aqui e ali servem de justificativa, ainda que vã e hipócrita, para os perversos, ao dizer “mas veja como combatemos este e aquele pecado, esta e aquela heresia; veja como a Palavra aqui é pregada, e não permitimos que outra coisa o seja!  Poderiam ser veras suas graves acusações, quando um zelamos pela Escritura e combatemos algumas das mesmas heresias e promovemos algumas das mesmas virtudes que vós?. A resposta que Cristo Jesus dá, porém, é para longe de mim vós que praticais a iniquidade; e tanto pior é quando havendo recebido tanto, tolera-se de nicolaítas à Jezebel em suas fileiras, não só se retirará de ti o teu candelabro, não só até o pouco que tem lhe será tirado, mas será grande a sua ruína. Portanto, sai dela povo meu, para que não recebas sua parte nas pragas que sobre ela irão incorrer.

Agora, para que não se diga que o AntiCristo não reina onde seu trono não é aparente, vejamos como Martinho Lutero explicou a genealogia da apostasia, que já havia nascido desde seu tempo hoje remoto: “…Mamom gerou ao Inchaço de Superfluidade, o Inchaço de Superfluidade gerou Satisfação Vã, Satisfação gerou Ira, Ira gerou Libertinagem, Libertinagem gerou Governo e Domínio, Governo e Domínio gerou Pompa, Pompa gerou Ambição, Ambição gerou Simonia, Simonia gerou o Papa e seus Irmãos, no tempo do Cativeiro Babilônico…”; mas não apenas isto, e sim o que classifica como “inteiro reino de Satanás”, e descreve como contendo “o papado, as missas, etc.”, ressaltando que ninguém preencheu o lugar de AntiCristo tão astutamente e ardilmente como o papa o fez. Nos símbolos de fé da Igreja Puritana Reformada, herdados da Escócia do século XVI, a Second Scots Confession de 1580, também chamada Scottish National Covenant denuncia “todos os tipos de papismo em geral.”, e prossegue “Nós detestamos e recusamos a autoridade daquele Anticristo Romano. Muitos são atiçados por Satanás e pelo Anticristo Romano para subverter secretamente a Verdadeira Religião de Deus… Nós, portanto… protestamos!”. Assim, onde Mamom governa pastores, instituições e congregações com livre e comum trânsito de montantes de dinheiro tais, que fariam enrubescer qualquer trabalhador honesto; onde o Evangelho se tornou causa de ganho, e a Verdade é mercadejada para produzir uma falsa esperança de salvação sem santidade; onde a superfluidade, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida são incentivadas e exaltadas de púlpito e pelo exemplo dos seus principais pregadores; onde Governo e Domínio e Ira tentam fazer, por calúnia, ameaça e manipulação calar a Verdade: ali o Papado reina! E eis a astúcia e ardil do AntiCristo se provando cruéis e sagazes, por não necessitar de um ostensivo trono em cada denominação dita evangélica ou protestante, em cada grupo dito congregacional ou presbiteriano, todavia em, filho de Satanás como é, contentar-se, por hora, que em alguma sala anexa, aos fundos dos templos, a serpente de bronze permanece dependurada; e que um ou outro aparentado amalequita receba as honras de ter ali sua habitação.

Na nuvem de testemunhas, na congregação dos santos, dos irmãos e pastores do passado, é que a Igreja Puritana Reformada permanece no original Protestantismo, detestando e protestando contra as obras do AntiCristo de Roma e de todos que com ele se associam; ansiamos por tal Reforma enviada por nosso Senhor e Deus, sobre as esferas privada e familiar, civil e eclesiástica, que conduza a Igreja de Cristo, mais uma vez, a comemorar, nos dizeres dos Decretos de Dordt: “a Igreja foi libertada pela poderosa mão de Deus da tirania do Anticristo Romano e da terrível idolatria do papado”.

Protestamos e protestaremos contra todos os afluentes da Igreja de Roma, contra todas as divisões religiosas, dentro e fora do Cristianismo, mesmo no meio dos que se chamam Reformados, que bebam das fontes e compartilhem das muitas heresias e erros do Reino de Satanás, ou da sua impiedade e cobiça, ou que protejam seu cabeça, o Papa, negando a doutrina histórica de que ele é aquele homem da iniquidade (II Tessalonicenses 2:3). Fica claro, portanto, que a Igreja Puritana Reformada (às vezes apelidada Igreja Kalleyana) não é uma comunidade isolacionista de nostálgicos seguidores do Rev. Robert Reid Kalley, como alguns ousam acusar; antes, nos juntamos com toda aquela multidão de santos do passado, nos colocamos cercados dos mártires e dos anciãos de toda a História, cujo clamor ainda vive sob o Trono de nosso Senhor e Deus, denunciando e protestando contra os poderes deste mundo e a apostasia da Cristandade capitaneada pelo anticristo papal. Poderes estes que atacam tanto com violência despudorada, como quando nossos membros foram perseguidos, espancados e apedrejados, no início do século XX, quando os “lobos calvinistas” (como eram apelidados jocosamente os membros da Igreja Evangélica pelos seguidores de Roma); quando os primeiros frutos da pregação do Evangelho conduziam ao estabelecimento da Igreja no Brasil; quanto atacam secretamente, como quando tais inimigos da Fé infiltraram costumes, doutrinas e perversões Romanistas no meio daqueles que deveriam estar defendendo a Reforma Protestante, fazendo-o pela corrosão, engano e veneno, pervertendo a forma da Igreja, assaltando sua história, depredando a forma de culto e adoração, inspirando os homens à leviandade, mundanismo e vadiagem.

Ao mesmo tempo em que a Igreja Puritana Reformada não é uma mera repetição do que Robert Kalley cria ou fazia, não recusamos a alcunha“kalleyana”, porque somos verdadeiros herdeiros espirituais da Igreja que o amado Reverendo Kalley fundou no Brasil, não segundo sua mente e vontade pessoais, mas sob a herança ainda maior e mais antiga da Igreja a que ele pertenceu, edificada e protegida por Deus como um vero ramo da Igreja de Cristo desde a Reforma Protestante – a Igreja da Escócia. Como a Escritura ordena, “lembrai de vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitais, atentando para sua maneira de viver” (Hebreus 13:17), lembramos daqueles que nos ensinaram o evangelho e pregaram entre nós, e, guardando a antiga vereda, retornamos à forma do Evangelho e da Vida Cristã que a Igreja de Cristo, século após século, lutou por guardar, intactos e puros. Guardamos o modelo daquela forma que a Igreja da Escócia recebeu no século XVI dos Revs. John Knox e Andrew Melville, e de tantos outros fiéis pregadores companheiros seus, e mesmo de fontes anteriores na aurora da Reforma Protestante sabendo e confiando que as portas do Inferno jamais prevalecem contra a Igreja de Cristo (Mateus 16:18-20).

Quando a pregação da Igreja Kalleyana alcançou do Sul ao Norte do Brasil, e novos grupos e congregações foram, pelo nosso Senhor, acrescidos a nós, o nome Igreja Puritana Reformada, se tornou a forma mais comum de se referir à Federação, mas nada foi alterado quanto à vera doutrina ou fundamentos bíblicos. O nome Igreja Puritana foi adotado, não por sermos anacronicamente Puritanos ou imaginarmos que somos, para os dias de hoje, o que os Puritanos ou Reformadores foram para seu século. Humildemente devemos nos rebaixar e assumir que, embora evocando o nome deles sobre nós, somos indignos e estamos muito distantes de, na prática e na piedade, merecermos estes epítetos derivados de pureza e novidade; contudo, constitucionalmente e por direção de nosso Sínodo, almejamos e batalhamos por santidade, simplicidade e pureza, sob contínua súplica de nossos pastores ao nosso Senhor e Deus, orando que cada família de membros possa comprovar a vocação da Salvação por um andar digno do nome de nosso Salvador. O nome Puritano Reformado foi adotado, não só por nossa igreja no Brasil, mas por vários grupos em todo o mundo, grupos não institucionalmente conectados entre si (o Puritan Reformed Theological Seminary foi fundado em 1995, em Grand Rapids; na internet surgiram Puritan Publications, Puritan Board e The Puritan Network; existem mesmo algumas congregações nomeadas Puritan Reformed Church, sem contato entre si nos EUA, Índia e África). Esta disseminação dos termos Puritano e Puritano Reformado se deu por similaridades e de forma paralela em todo o mundo, oriunda originalmente da grande alegria, e do grande impacto teológico, que fora a redescoberta e republicação da literatura dos Puritanos e Reformadores (especialmente desde a obra da Biblioteca Evangélica, da Westminster Conference e da Banner of Truth Trust na Grã-Bretanha). Este pequeno reavivamento doutrinário, como resposta aos assaltos da incredulidade, ou do misticismo e falsidade, que a Igreja Cristã sofreu em grande parte do século XX, não passou despercebido nem deixou de gerar bons frutos em todo o mundo. Estes assaltos da incredulidade não são aqui uma mera referência aos problemas na Igreja da Escócia, dos EUA ou na Igreja Evangélica do Brasil; nem uma crítica pontual ao liberalismo teológico crasso, mas um lamento que todo homem piedoso lançou, ao observar o miserável estado da Igreja de Cristo, além de qualquer denominação, no século XX. É a esta Igreja Católica e Universal, Mística,Vitoriosa e Gloriosa, mesmo quando em prantos e trajada de pano de saco, que contemplamos em nossos esforços para honrar a nosso Salvador, Jesus Cristo, Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores, digno de toda Glória e digno de todo esforço para levar à edificação de uma Igreja visível cheia de pureza e Verdade.

O liberalismo teológico, a neo-ortodoxia (e seus frutos mais recentes, como a teologia aberta ou teologia do processo), o subjetivismo antropocêntrico existencialista, a teologia da libertação (e seu alter ego, a teologia da missão integral), o pentecostismo e carismatismo, a gangrena cartesiana; o envolvimento com os poderes deste mundo de trevas e o rendimento ante as fortalezas filosóficas de Satanás, a saber, o socialismo, o secularismo, a maçonaria (e outras ordens similares); além do mundanismo e da sedução das riquezas, confortos, leviandade e prazeres deste vida, como águas pela boca do Antigo Dragão, tem tentado engolir o Verdadeiro Evangelho e destruir todos os distintivos da Igreja de Cristo sobre a Terra. Estas perversões de doutrina e essas negligências para com a piedade prática são marcas bem mensuráveis, destacadas e visíveis da Apostasia e dos poderes secretos do Anticristo Romano, são a aparência da piedade concomitante à negação do seu mistério (II Timóteo 3:5; I Timóteo 3:16). Larga e claramente todas estes falsos ensinamentos e iniquidades se encontram instalados e estabelecidos fora das chamadas “micro-denominações” (pequenas federações e grupos que resistem para não serem contaminadas por estas satânicas doutrinas e perversões). Vastamente a decadência espiritual se faz conhecer na teoria e na prática, em denominações e grupos centenários e históricos, que se nomeiam evangélicos, reformados ou protestantes flertam com políticos, heresias, falsas ciências e vãs filosofias; além de tolerarem, copiarem e incentivarem os modos de viver, de vestir, de falar e de entreter-se daqueles que não conhecem a Jesus Cristo: como se fosse possível haver aliança ou paz entre Jesus Cristo e Belial, ou como se pudessem servir a Deus e a Mamom ao mesmo tempo, negando toda advertência bíblica a este respeito.

Tendo ódio até pela túnica manchada do pecado, lutando para voltar à Reforma (em uma luta da mesma natureza que o da Igreja Puritana Reformada do Brasil), vê-se que ainda em na década de 30, a Universidade de Edinburgh da Igreja da Escócia (Libertada) em cooperação com o Old School Prebyterianism da Universidade de Princeton, publicou os dizeres:

“Sem dúvida a Fé Reformada está sofrendo um declínio no mundo teológico de hoje. O que tem sido chamado de ´Primavera da Reforma na Alemanha´ [isto é, o que diziam ser um tempo de prosperidade e retomada da Fé Refomada na Alemanha], nós não podemos considerar como descendente e filha legítima da Fé Reformada clássica.

No que prossegue, diz: na Escócia e na América, os teólogos que desejávamos que fossem lembrados já não exercem influência, e estão largamente esquecidos. Quase dois séculos antes, em 1748, segundo registrou o Rev. Alexander Stuart, conforme o que foi resumido no artigo do Rev. John J. Murray, da Banner of Truth Trust publicado em 1965, aqueles que “sentiram o poder da Palavra”  se distinguiam de uma multidão de cristãos mornos e estes poucos homens fiéis caminhavam distâncias como a de Glasgow até Edinburgh, aproximadamente 75 km, toda semana, para se sentar sob a pregação de um ministro fiel e poder frequentar uma congregação em que fosse pregado o evangelho completo (e não, o que, segundo ambos narradores, era pregado em praticamente toda a Igreja da Escócia: um moderatismo descrente!). O cenário da época era tal que, um ministério que fosse fiel a Fé Reformada Clássica, nas palavras do autor, era como um oásis no meio do deserto.

Não é a Igreja Puritana Reformada a criadora deste protesto, senão que somos somente mais uma voz a ecoar o mesmo brado e a erguer o velho estandarte vermelho da Grande Reforma Protestante e o velho estandarte azul da linhagem Reformada de Estrasburgo à Escocia (chamada Segunda Reforma Protestante), ao afirmarmos que:

o que se chama de Fé Reformada ao nosso redor hoje é uma figura bastarda que não descende da Fé Reformada Clássica, e não se alinha com o que João Calvino ou John Knox, ou os Puritanos e Covenanters lutaram para restaurar, em seu próprio tempo, segundo o modelo da Igreja Primitiva.

Irmãos, todos os que sentem e conhecem o poder da palavra, levantem-se do meio desta multidão de cristãos mornos! Afastem-se do moderatismo descrente, que carece de zelo pelas coisas santas, e de temor diante do Senhor! Abandonem as novidades e modismos, a leviana indiferença e a maligna tolerância para com o erro, a mentira e a iniquidade, abandonem a soberba daqueles que, em era de tão densas trevas e incredulidade, crêem sobrepujar em sabedoria todos que guardaram a fé Cristã e Reformada entes desta geração adúltera! Percebamos que a Reforma Protestante não foi um movimento progressivista, todavia, sim, de restauração à pureza e simplicidade, de volta às fontes, de um retorno ao modelo da Igreja Primitiva. A Igreja de Cristo, universal e eterna, além de qualquer denominação ou instituição, é portadora de um claro e firme padrão de Fé e prática erguido sobre a Sagrada Escritura, imutável e inalienável. A responsabilidade dos que tomam sobre si o Nome de Jesus Cristo, o Nome que é sobre todo o Nome, é de serem fiéis a todo este conjunto de fé e prática (e não somente a pequena parcela conveniente a cada grupo, conforme suas concupiscências e a vaidade de seus líderes, não diluindo o Evangelho para se tornar mais palatável ao mundo decaído, nem adaptando a fé e prática às modas de cada época. Esta Igreja de Cristo, a qual sobrepassa e inclui os fiéis servos seus da Igreja da Escócia e da Igreja do Brasil, esta Igreja de Cristo, sim, Universal, Apostólica, Santa, e Pura: daí procede a Igreja Puritana Reformada (e todo crente que, odiando ao mundo, busca a Verdade em toda doutrina e em todo agir) em continuidade. Esta Igreja mística e transcendente que foi visível, em seu esplendor, invadindo o tempo pela proclamação da Palavra quando, com Espírito e Verdade, os Apóstolos edificaram-na no princípio. A este princípio, a esta Igreja devemos sempre voltar. Desta Igreja Universal recebemos a sucessão de doutrina e vida, de quem somos herdeiros, e é ela que vemos agir, com similar poder e pureza, séculos mais tarde, na pregação e ensino de João Calvino, John Knox, John Owen ou John Cunningham; é ela que identifica-se nos Reformadores e nos Puritanos, e nos seus antecessores. Renegamos toda e qualquer perversão e erro que assolou a Igreja da Escócia, tanto quanto renegamos os erros que se avultaram sobre a Igreja do Brasil ou mesmo qualquer coisa advinda  de um individual Reformador, ou de um individual Puritano, mas que não possa ser reconciliada com o firme padrão de Fé e prática recebido constitucionalmente pela Igreja de Cristo, manifesto na História, fundado na Sagrada Escritura, imutável, atemporal, primevo. Historicamente, a Igreja Puritana Reformada abraça este padrão doutrinário e prático que une os fiéis Cristãos que, no século XIX, tanto no Brasil quanto na Escócia, Inglaterra e EUA, lançaram as bases do que veio a tornar-se o que hoje se chama Igreja Puritana Reformada: é o mesmo padrão doutrinário, prático e Confessional exaltado na Reforma Protestante no século XVI e, antes disso, para citar exemplos, pelos Wycliffistas no século XIV e pelos Valdenses no século X, e, embora nos faltem nomes descritivos, exceto a nacionalidade, por milhares de Cristãos da Suiça, França, Itália, Holanda, Escócia, Irlanda e Gales até a Boêmia (próximo a região da atual Eslováquia) desde o século II, os quais tantas e muitas vezes foram perseguidos e acuados até quase desaparecerem, como bem testificam disto historiadores como John Fox (no Livro dos Mártires), além de McFeeters e McDonalds em seus muitos escritos. E, sem receio de o declarar, a Igreja Puritana Reformada empresta para si hoje aquele mesmo testemunho dado, nos séculos XVIII e XX respectivamente, pelos Revs. Alexander Stuart e John J. Murray:

encontrar um pregador ou uma igreja que pregue o verdadeiro, completo e antigo Evangelho, nos dias de hoje, é tão raro e precioso quanto encontrar um oásis no deserto.

E ainda, repetimos, como Igreja Puritana Reformada, aquele mesmo brado do início do século XX, e o repetimos para os dias de hoje pois, embora se disfarce de anjo de luz, o filho de Belial não se desfaz do seu apego ao mal, e, como não há essencial diferença na fonte da perversão que gerou o liberalismo teológico para a fonte da perversão que gerou a neo-ortodoxia, e não há tal diferença entre antinomianismo, libertinagem e mundanismo, clamamos, sob o mesmo espírito, a mesma denúncia:

todo esta balbúrdia em torno do calvinismo e da reforma que vemos em nossos dias, gera igrejas e instituições que nós não podemos considerar como descendentes e filhas legítimas da Fé Reformada.

Ora, se este é o cenário do presente século mau, estarão em pecado de cisma, os que, se apegando ao fundamento da fé, ainda que em pequeno número, ainda que em espalhadas e desconexas “micro-denominações” se recusam a se contaminar e a ceder às vaidades e idolatrias?

Que se recusam a ouvir o convite da loucura, se recusam a tomar das águas roubadas de Roma?

Ouçamos as vozes anteriores a nós na herança da Reforma falarem por si mesmas:

“Eu penso ser manifestadamente absurdo dizer que não devemos nos separar de uma igreja particular, não importa o quanto degenerada e corrupta em doutrina, ou forma do culto, ou disciplina e governo esteja; que não devemos deixar uma igreja particular até que não seja mais, de maneira alguma, Igreja de Cristo.”

(John Anderson, Alexandre e Rufo, 1862)

“Qualquer um que considere sua doutrina, fé e confissão como verdadeira e certa não pode estar sob o mesmo teto com outros que ensinam falsa doutrina ou se agradam a ela, nem pode continuar a falar palavras doces para o diabo e seus seguidores.”

Martinho Lutero, Carta para George Major

Portanto, irmãos que não estão ainda tomados da mornidão, lembrem das Palavras de nosso Senhor “Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:16) e procurem a luz e calor da pura pregação, afastem-se dos que ensinam falsa doutrina ou permanecem impassíveis sob a condução do falso mestre, que falam ou amam ouvir as doces, porém venenosas, palavras do diabo. Não é a Igreja Puritana Reformada que de si os conclama, mas somente fomos conclamados, lado a lado, a tal pelo testemunho da História e da Escritura. Protestamos contra todos os inimigos da Verdade e bradamos, em nome de nosso Rei e Senhor, a solene proclamação: “Quão tremendo és tu nas tuas obras! Pela grandeza do teu poder se submeterão a ti os teus inimigos.” (Salmos 66:3), e oramos pedindo ao Senhor que no dia da Sua vingança e visitação sobre a Babilônia e todos filhos dela, aqueles que amam nosso Altíssimo Deus já tenham, há muito deixado de participar de suas corrupções.