CONFESSIONALIDADE HISTÓRICA

Até agora, em nossas reflexões sobre o uso de Confissões de Fé, vimos que o sectarismo é, sem dúvida, um grande mal. Porém, são males ainda maiores a falsa religiosidade gerada pela Fé imposta, e o sincretismo ou corrupção doutrinária que a falta de documentos e de um sistema teológico (ou sua compreensão equivocada) inevitavelmente gera. Uma Confissão, Símbolo ou Declaração de Fé, corretamente compreendida, combate todos os três problemas: anula o sectarismo ao proclamar uma fé que ultrapassa o tempo e o espaço denominacionais; anula a religiosidade imposta por ter como natureza uma comum e voluntária compactuação, firmada entre cristãos submissos à Escritura Sagrada e guiados pelo Espírito Santo como reflexo de sua união em Cristo Jesus; e, impede a corrupção doutrinária ao estabelecer padrões claros e fixos baseados nos antigos marcos da ortodoxia histórica e bíblica. Saber destas coisas nos traz muito pesar quanto ao presente estado daqueles que professam o cristianismo, pois em toda parte há um grande desconhecimento da verdade e, portanto, um mal uso (ou até a rejeição) das Confissões e Símbolos de Fé.

Esta lamentável falha em obedecer nosso Senhor faz com que um crescente número de homens não conheçam a Cristo Jesus, e que seja tão raro encontrar uma igreja fiel. Porém, a simples adoção de documentos ortodoxos, por si só, não purifica uma igreja – no Brasil tanto a Igreja Presbiteriana quanto as Congregacionais tem documentos cuja base doutrinária é correta, sem que isto torne sua prática correta. É necessário ter tais documentos – é mesmo um dever cristão tê-los, pois nosso Senhor nos comanda a confessá-lO, com razão e entendimento, em conjunto com a igreja [Romanos 10:9-10; Hebreus 4:14; Marcos 12:33; Judas 3]; porém, tão importante quanto a adoção de documentos de fé bíblicos, é ter uma correta compreensão destes pela Escritura, segundo a iluminação do Espírito e assim praticá-los. E isto não vêm dos documentos em si, mas é ação soberana do Espírito de Deus pela Palavra e em Sua graça; e Deus pode fazê-lo em uma igreja que confesse Westminster, Savoy, As Três Formas de Unidade, os 28 Artigos de Kalley ou qualquer outro documento solidamente baseado na Bíblia e que contemple o coração das doutrinas cristãs.

Ressaltamos que esta pequena crítica, tanto positiva quanto negativa, do papel das Confissões de Fé (a qual lemos tantas vezes nos sermões do Rev. Kalley e de John Owen, dentre outros amados puritanos), não significa que a Igreja Puritana (ou que Robert Kalley ou os Puritanos) faça oposição a existência de Confissões de Fé. Já destacamos a necessidade da existência de documentos doutrinários. Todavia, é nossa responsabilidade alertar, como já alertamos, sobre os grandes perigos que existem nisto. Por um lado, há o perigo de que os documentos sejam exaltados acima da Escritura e se tornem um outro mediador entre Deus e os homens – o que é odiosa idolatria, e causa tanto o sectarismo (igualando, de forma terrivelmente equivocada, o conhecimento dos documentos ao conhecimento de Deus) quanto o sincretismo (pela intrusão inevitável da imaginação humana no documento idolatrado, impedindo, entretanto, que esta intrusão seja corrigida pelo confronto com outros Símbolos de Fé e, sobretudo, com a Escritura); por outro lado, há o perigo de que os Símbolos não sejam conhecidos do povo e não tenham nenhuma aplicação para nos tornar mais humildes, tementes e confiantes em Deus (e dotados de grande anseio em serví-lO como Ele se agrada e de adorá-lO somente como a Escritura comanda) e aptos para as boas obras para com o próximo – pois os que confessam a Fé com uma compreensão metódica mas não vivem conforme esta fé, são desprezíveis hipócritas.

Por isso, a Igreja Puritana considera que obras do passado como A Declaração de Savoy e o Catecismo de Heilderberg devem ser usadas para se dirimir dúvidas e desfazer conflitos doutrinários nos Concílios e Sínodos; para nos direcionar mais e mais a Cristo dando-nos a esperança e a prova de que Deus sustenta Sua Igreja em todos os séculos, como também, para constante educação e meditação aos ministros do Evangelho e para uso particular das famílias e das escolas na educação dos filhos da Aliança e para devoção pessoal. Confessamos e subscrevemos, paralelamente e plenamente os Padrões e Diretórios de Westminster como fiel exposição da Sagrada Escritura e regimento submisso a Bíblia para nos guiar na compreensão dos seus ensinos – e tudo isto, ainda que não consideremos nenhuma destas obras perfeita, inalterável, necessária ou insubstituível; pois estas obras são, como dito, guias para encontrar com mais facilidade o caminho de nossa peregrinação nas Escrituras, sendo esta a Palavra final e definitiva (e jamais o inverso deve ser sequer cogitado); entretanto, consideramos também que tais obras não são o único limite e caminho para a ortodoxia, confessando nossa comum fé também através de outros documentos.

Exatamente pela soma destas razões, nós elaboramos, no decorrer da longa luta de um século desde a fundação da Igreja pelo Rev. Kalley, nossos próprios Símbolos de Fé: para confessar neles a universalidade da invisível Igreja de Cristo através do nosso reconhecimento paralelo e harmônico dos documentos do passado; para declarar o amor pela nossa herança puritana, hoje sintetizada no sistema teológico chamado Calvinismo ou Fé Reformada Clássica, reconhecendo nesta herança a graça de Cristo para com Sua Igreja por sustentar esta genuína fé cristã em todos os séculos, ainda que sob diferentes rótulos; para desejar e operar como igreja autóctone em esperança de um establishment e pacto nacional (segundo esta mesma livre graça de nosso Senhor); para sermos capazes de inspirar ortodoxia e piedade ao ensinar teologia pelos nossos próprios Símbolos de Fé, não descartando o Testemunho Histórico deste último século; para manter ma linguagem e maneira acessível ao povo comum, com especial amor pelo coração do povo brasileiro e subequatoriano, cuja cultura, costumes, pecados, pensamentos e dificuldades nos são tão próximas.

Além disso, nossos Símbolos de Fé combatem diretamente heresias e falsos ensinos que assaltam o povo de nossas igrejas ainda hoje e, ao que parece, nos imediatamente futuros séculos. Cremos que este é o verdadeiro espírito da Reforma: não simplesmente repetir as antigas fórmulas, mas ser capaz de ensinar como as eternas Verdades são aplicadas e vividas hoje, conservando vivas e eficazes estas antigas fórmulas no ministério e espírito da Igreja. Aprendemos isto pela Escritura e nos foi exemplificado na vida daqueles preciosos puritanos e de nossos fundadores no século XIX, que elaboraram tantos catecismos, credos e confissões para instrução de suas igrejas locais sem, no entanto, desprezar os catecismos, credos e confissões históricos, nacionais ou transnacionais.